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Quando eu conheci você...

Inicialmente eu pensei em escrever esse texto e dedicá-lo a uma só pessoa, mas refletindo melhor, seria injusto, quase impossível citar só uma pessoa que foi responsável por lapidar, seja com sorrisos ou pedras, o que eu sou hoje. Então esse texto é para vários “você” que estão soltos por aí, próximos de mim ou tão distantes que eu já nem consigo lembrar suas feições.
Em primeiro lugar, obrigada. Obrigada por me ajudar a me tornar quem eu sou hoje, por que eu gosto de mim. Gosto do que eu me tornei, do que eu posso me tornar com as bases que eu construí, graças a vocês, e a todos os acontecimentos que nos chocaram pela vida a fora. Sei que eu não sou a melhor pessoa do mundo, nem sou perfeita. Mas ainda assim, sou contente comigo, tenho aquela confiança arrogante que todos têm, em altas ou baixas doses, sobre si mesmos.
Vocês mudaram minha vida, de um jeito ou de outro. Fazendo-me rir, me aconselhando, não me conhecendo e dizendo conhecer, me conhecendo e fingindo não me conhecer, me fazendo chorar, me frustrar, sentir raiva, ódio, amor, paixão, atração, nojo, irritação, antipatia, simpatia, carinho, pena, excitação... Fazendo-me viver e sentir o que deveria ser sentido, lidar com minhas emoções, aprender e crescer com elas.
A verdade é que sem a presença de vocês, entremeando meu cotidiano, roubando meu tempo, às vezes meu pensamento e quem sabe até meus sonhos, eu não seria a mesma de hoje, seria outra Alessandra, outrem que talvez eu não gostasse de ser. Uma frustrada, uma vazia, solitária e sofredora, mal-humorada, resignada, arrogante, esnobe, fútil... Alguém que teria vergonha de ser quem é. Vocês, cujos rostos eu lembro ou não, cujas conversas eu mantenho ou não, cujas opiniões me importam ou não... Vocês têm uma boa parcela de culpa ou responsabilidade no que eu me tornei hoje.
Amigos, colegas, conhecidos, inimigos, amores, desamores, familiares, pessoas. Não importa muito a que categoria eu os qualifico, ou vocês me qualificam, o que importa é que no dia-a-dia, à medida que a vida segue seu curso, vocês me marcaram, tenham sido cicatrizes profundas ou pequenos arranhados. E eu espero ter marcado vocês também, de uma forma ou de outra. Espalhando um pouco do que eu sou por aí, tal como fizeram comigo, ajudando a construir uma identidade, um ideal do que ser e como agir, seja por exemplos bons ou ruins.

Bloínquês, 97ª edição opinativa.

10 coisas que você precisa saber sobre mulheres

Espero que isso seja útil a algumas pessoas.

10 – A TPM não é um folclore partilhado pela civilização mundial. Ela existe e desdenhar disso pode causar a morte prematura.

9 – Não somos consumistas por que queremos. Ao menos, não conscientemente falando. A verdade é que existe toda uma rede de marketing muito boa por aí, e acima de tudo, existe a exigência da sociedade com seus padrões. Reclamar e acusar de consumismo é fácil, mas todo mundo quer ver todo mundo bem vestido e cheiroso.

8 – “sexo frágil”. Detestamos essa designação. Se nós vivemos em uma sociedade inserida em um Estado de direito, onde o único que tem a legitimidade de usar a violência é o próprio Estado, a força física não deveria ser uma categoria de diferenciação entre gênero. Não é pela base da força  bruta que fazemos as coisas, ao menos nos termos da lei certo?

7 – “Mulheres no trânsito são um problema”... Claro que não! De fato, o que mais tem por aí são dados estatísticos e estudos comprovando que a mulher é a que mais pratica a direção defensiva no trânsito, coisa que é obrigatória a todo mundo que possui habilitação. Logo, aristotelicamente raciocinando. Se a mulher não é a maior causa dos acidentes no trânsito, e só temos (reconhecidamente) dois gêneros, quem é o maior causador?

6 – Usar roupas decotadas, saias curtas ou calças justas não necessariamente quer dizer que queremos ficar aturando olhares nada discretos de homens. Nem sempre uma mulher se veste para agradar o público masculino, e sim para se agradar, já pensaram nisso?

5 – Ainda sobre o tema acima: Só por que uma mulher usar roupas que valorizem o seu corpo, isso não dá o direito de ninguém de qualificá-la como “fácil”, “piriguete” e outros termos ofensivos. O corpo é dela, ela veste o que bem quiser, e mesmo que tivesse os comportamentos que a colocariam nessas categorias, qual o problema? A independência sexual está aí há tempos.

4 – “Mal-amada”, “Isso é falta de sexo”. Vocês não têm ideia do quanto isso irrita uma mulher. Como se todos os problemas da vida fossem resolvidos com relacionamentos amorosos e transas. Muitas vezes o estresse diário, os problemas pessoais acabam causando comportamentos bruscos, e simplesmente dizer que a solução ou a causa disso é sexo ou a falta de alguém é ofensivo.

3 – Nem toda mulher está à espera do príncipe encantado ou quer viver um conto de fadas. Ou seja, essa coisa de romantismo ingênuo não é algo que atinge todo público feminino, na verdade, atinge uma parcela que hoje se reduziu significativamente. Não estou dizendo aqui que as mulheres não são românticas ou não querem relacionamentos duradouros, mas esse romance, e essa ânsia não são mais submissos. Queremos relacionamentos igualitários naquilo que eles podem ser.

2 – Não estamos tentando roubar o espaço dos homens ou então dominar o mundo e instaurar uma ditadura feminista. Só queremos uma coisa: Liberdade. De expressão, de atuação. Liberdade para viver sem ter um destino “fadado”, como ser aquela que vai ficar em casa e cuidar dos filhos. Queremos fugir do estereótipo de Amélia e sermos vistas como indivíduos dotados de vontades e sonhos.

1 – Não importa quantos manuais serão feitos para se entender as mulheres, eles nunca vão conseguir abranger todas as diferentes personalidades que existem nas várias ou numa só mulher. A verdade é que somos sim um gênero complexo, que vive em dilemas. Mas talvez grande parte disso só seja por que nossa educação é conflituosa e a época em que estamos vivendo, de quebra de laços e identidades, esteja sendo sentida cotidianamente. O que você realmente precisa saber é: trate-nos com respeito, como se deve tratar qualquer pessoa independente do gênero ou opção sexual.

Mais uma lista de 10 razões aqui no blog, mas dessa vez essa é uma resposta a 96ª edição opinativa do Bloínquês.

WE 28, nº 2010, Cd. Nova IV

Belém, 1º de Março de 2012

Oi,
Eu pensei em tantas formas de começar essa carta. Tantas formas agora feitas de bolas de papel que transbordam minha lixeira. Mas o “oi” venceu. Parece-me um bom jeito de recomeçar, um oi amistoso, saudoso, quase suplicante. Eu estou dizendo oi, nesse momento. Várias vezes, oi, oi, oi. Oi!
Como se você pudesse ouvi-los, ouvir a saudade que rompe a cada pronúncia.
Faz tanto tempo desde que eu fui embora. Desde que palavras e gestos amargos foram ditos, retribuídos. Tantos machucados, orgulhos feridos. Eu ainda lembro-me de tudo, mas o que eu sinto? Eu sinto vergonha e tristeza. Aquilo não deveria ter acontecido. O motivo foi tão besta, e você, no final das contas, mesmo sob minhas acusações e atitudes agressivas, você só queria meu bem. Como sempre quis, aliás.
Sete anos, sete longos anos sem a sua presença perto de mim. Sem os seus ensinamentos diários, suas implicâncias, sua risada contagiante e verdadeira. Sua expressão de falsa maldade que parcamente escondia a bondade transbordante que você possuía.  Quanta saudade de todos os momentos, os bons e os ruins, os tédios compartilhados. Os silêncios conversadores.
Estou escrevendo essa carta pra expressar tudo isso, mas ela não é suficiente, nada é suficiente pra fazer você entender o quanto foi e o quanto é importante. O quanto eu me arrependo de não estar mais perto. Tudo por que nunca tive coragem, por que eu temia que você pudesse me rejeitar novamente, ou que eu percebesse que a sua vida foi melhor longe de mim. Que você sequer sentiu minha falta um dia, que você tivesse me esquecido.
Preferi, ao invés de encarar a realidade, seja ela qual fosse, me contentar com a vida que eu construí depois que fui embora. Uma vida tão cheia de incerteza, tão vazia. Uma vida que eu não queria admitir que fosse incompleta sem a sua presença segura, sem sua guia confiante. Será que eu estava fazendo as coisas certas? Eu vivia me perguntando, e no íntimo, respondendo que se eu fosse até você, você saberia as respostas todas. Por que você me conhecia mais do que ninguém, mais do que eu mesma.
Mas mesmo sob essa insegurança, eu reuni coragem para insistir, para te escrever e pedir perdão. Por que, eu preciso fazer isso, eu não consigo sem você. Sei que não é a forma corajosa, não seria com uma carta que você tomaria qualquer atitude, mas foi o jeito que eu consegui sem sentir tanta vergonha de mim mesma. E eu ainda sinto escrevendo. Sempre sentirei, acho que é meu castigo por ter sido tão irracional. A primeira e única tentativa de me redimir. Escrever a carta, colocar no correio e não esperar resposta. Como se não me importasse muito, embora eu tenha a certeza que ficaria vidrada nas correspondências a espera de um sinal. De que você viesse atrás de mim depois.
Eu ficaria... Se não estivesse aqui, escondida atrás do velho carvalho, vendo você ler essa carta parado na calçada, costume que você sempre tem. Morrendo de medo da sua reação e ao mesmo tempo tão grata por você não ter simplesmente rasgado e jogado tudo na lixeira. Por que por mais que eu esteja insegura, eu precisava insistir, por que mesmo que você tivesse se desfeito da carta sem ler, ainda assim eu iria sair para tentar falar com você, como vou fazer agora. Pra te dizer quantas vezes forem necessárias que...
Eu te amo tanto, pai.
Por favor, me desculpe.

Sua princesinha.

O medo e a insônia



Por que tanto medo?
Eu me pergunto isso toda vez, a cada madrugada com insônia que resolvo refletir seriamente na minha vida, onde, a despeito do dia mais feliz que eu possa ter tido, eu me aproximo daquele buraco negro que um dia quase me consumiu. Depressão? Não, não acho que tenha sido isso. Houve um momento em que eu acreditei que estava, mas se eu for pensar direito, eu sempre fui assim. Sempre tive esse lado escuro que me assusta, que eu tento escapar, mas não consigo. Nunca consigo.
Um buraco cavado pelo medo em meio a um terreno fértil de pessimismo e insegurança.
Essa sou eu, verdadeiramente. Sozinha.
Preciso todos os dias de uma dose de confiança, de coragem, de brilho, de esperança, pra conseguir atravessar a vida sem muitas sequelas e machucados, sem voltar correndo para o casulo seguro e impenetrável da minha solidão. Queria que isso fosse superado, que não fosse um problema, mas como dizer que não se meu prognóstico de vida diz o contrário, que eu não teria razões pra sofrer esse mal como eu sofro?
Eu tenho medo de falhar. Medo de arriscar. Medo de sofrer. E a cada vez que isso acontece, meu medo só aumenta. A resignação de que eu não sou tão boa assim, a conformação de que essa é a vida que eu tenho e é melhor me contentar. A falta de disposição de ir além, fazer algo mais, ser alguém. O ceticismo em relação às pessoas. Elas não mudam, elas vão me decepcionar. Ou pior, eu vou decepcioná-las, por que eu não mudo. Por que eu não sou o que elas pensam.
Eu sou fraca, a verdade é essa. Meu riso esconde minha insegurança. Minha ironia, a timidez. Minha preguiça, o medo de tentar. E toda vez que eu tento fugir desse redemoinho, que eu estou quase confiante de que há esperança, de que não existem razões para ter medo, que viver os momentos, bons e ruins por inteiro é melhor do que viver uns poucos momentos bons seguros e pela metade, mais uma noite de insônia me vem e me puxa para o fundo.
Mas amanhã vai ser um novo dia, e eu vou me afastar desse buraco e respirar um pouco a liberdade de poder sonhar e confiar em um futuro melhor, conquistado por mim, por que eu tive confiança o suficiente, eu acreditei em mim mesma. Um futuro onde aqueles que me importam se orgulhem.

Uma carta pra quem precisa


Belém, 21 de fevereiro de 2012

Eu queria tanto poder te passar a segurança que eu sinto. Dizer-te que eu sei e que eu tenho a plena certeza de que o final que você almeja vai dar certo, e está lá esperando por você. Melhor ainda, que o final que você tanto quer, não passa do início de outra etapa na sua vida. Uma etapa que vai se moldar a você de forma tão perfeita, como você sempre sonhou que moldaria. Queria tanto poder te dizer que sim, você nasceu pra isso. Que você é uma das poucas sortudas de conseguirem descobrir que o que você quer é exatamente aquilo para o qual você foi feita.
Queria te dizer tudo isso, com um sorriso no rosto, segurando sua mão e observando suas expressões se modificarem lentamente, mas de forma intensas, ver você crescer ao mesmo tempo em que mergulha na felicidade da inocência infantil, de uma criança que ganha doces. Você merece isso. Eu sei que sim, e eu acredito, não pela fé cega no que você é, mas pelo conhecimento do que você fez e dos caminhos que você trilhou, das coisas que você sacrificou em prol daquilo que você tanto quer.
Quero te dizer que não é preciso tanto medo, tanto pessimismo, tanta falta de fé em si mesma. Por que você vai conseguir, você vai chegar lá. Não é preciso se subjugar tanto, pensar que suas qualidades não são suficientes, que você não está à nível do seu sonho. Dizer-te que se você foi obstinada o suficiente para sonhar com isso, e mesmo temerosamente, trilhar sua longa jornada nessa direção, então você está acima do nível do que você acha. Então que você vai alcançar o que você quer, sem toda a dor que você acha que vai sentir, sem o medo da decepção que você pensa que não vai suportar.
Você não vai sentir essa decepção. Tira isso da sua mente. Não seja assim, tão dura consigo mesma. Tão desesperada para que o final chegue, mas também que ele demore. Por que você não está preparada, você nunca vai estar preparada o suficiente. Deixa essa paranoia de lado, ela não te faz bem, te tira lágrimas que você não precisava derramar, te angustia por coisas que você ainda não realmente sentiu. Queria tanto poder te passar a segurança que eu sinto pra que você pare de sofrer por antecipação, para que você não seja tão dura consigo mesma, e possa sorrir mais, confiar mais e acreditar mais em si própria. Nas suas capacidades. Eu queria tudo isso, por que eu vi, eu te vi lá, e eu te vejo agora. Você vai conseguir, garota. Você nasceu pra isso. Não tenha medo, não desista do que você ainda nem tentou de verdade.

Com amor,
O futuro.

Ai amor...

O amor.
Possivelmente um dos temas mais sorrateiros com o qual temos que lidar em nossas vidas. Em primeiro lugar, o que é o amor? Aí é uma boa pergunta, insólita e sem resposta pelo fato de ter tantas respostas. A biologia, a teologia, a sociologia, a antropologia, a psicologia, a matemática, a astrologia, a quiromancia, a mitologia... São tantas coisas que tem explicação pra esse sentimento que é difícil escolher qual a melhor, ou quais combinar pra ter uma resposta mais "completa". Uma palavrinha, o xis da questão de toda a história da humanidade, e nenhuma resposta plenamente satisfatória. Se existem 7 bilhões de pessoas no mundo, existem, no mínimo, 7 bilhões de opiniões sobre o amor.
O certo é que mesmo o mais covarde quer sentir, busca, ainda que secretamente, por meio de palavras ou ações, ter um fragmento de amor na vida. Por que o amor, não pode ser medido nem delimitado. Como bem disse Bauman em Amor Líquido, o amor tal como a morte são experiências únicas. Você nunca vai compreender totalmente se não vivenciar, o amor dos outros é um amor interpretado, atuado, como se fosse um filme editado que vai chegar a você. É preciso que cada um viva seu amor. Ou seus amores. 
E todos necessitam dele.
Mas necessidade é uma palavra forte, gera medo, incerteza. E busca-se então soluções mais simples, por que o amor não é fácil, e muito menos indolor. E a nebulosidade do futuro impede a sensação de segurança de saber que vai dar certo, que há algo bom do outro lado. Mas então, por que pensar no outro lado? Por que não pensar na caminhada até lá? Dar e apreciar passo a passo. O amor não é um lugar onde se chega, é um caminho, é algo que se constroi, que se mostra através das curvas sinuosas, das retas, das ladeiras... Ora de ladrilnho, ora de cascalho, ora de um asfalto liso, ora de remendos e buracos. Mas ainda assim um caminho, que pode ser sem saída, pode haver bifurcações, pontes... Tantas coisas que você deve arriscar-se a vivenciar. 
Mas vale à pena tanto risco por tanta incerteza? E se acabar? É o que a grande maioria se pergunta. O que eu me pergunto ainda. A resposta é simples, vale à pena tanta resistência e não viver nada? Qual o objetivo então, de a todo momento, se privar das coisas pelo medo do compromisso? Quando no fundo, se quer o compromisso? Somos tão ambivalentes que com o amor não seria diferente. Ao mesmo tempo que ânsiamos por amar, somos aterrorizados por isso. Ao mesmo tempo em que queremos a liberdade de poder ter e sentir amor, temos medo da prisão que ele pode causar, do tolhimento da liberdade de amar por estar amando. Aí pensamos, e se acabar não é? Possivelmente, queiramos que acabe, sentir alívio por que findou-se. Esperar pela falha é mais seguro, mas impede a vontade pra seguir em frente, em busca de mais.
Não acho que o amor acabe. O que acaba é nossa coragem de tentar construi-lo todos os dias com alguém. O que acaba é a nossa suposta segurança e boa vontade de estar cinquenta por cento dependente das ações de outra pessoa. De não ser soberano de suas emoções, como aparentemente a vida sem amor diz que é. Mas se a vida sem amor é uma vida que busca pelo amor, será que realmente tivemos a soberania, o controle sobre as nossas emoções em algum momento? É algo a se pensar. Tanto quanto as armaduras anti-amor que nos vestimos, mas que queremos que alguém tire, só não por muito tempo, por que podemos mudar e não mais caber naquela armadura, restando então a fragilidade sem ela.
No final das contas não é o amor que acaba, nós quem acabamos com ele.


Pensamento em Sintonia?

Será que nós dois estamos ligados pelo destino? Será que isso significa que somos almas-gêmeas?




Antes de iniciar a discussão, é preciso avisar que minha opinião está muito sujeita ao ceticismo em relação às coisas românticas. Vai ver por que eu estou desapaixonada ou, quem sabe até o contrário, enfim. Segredos. Todo mundo em algum momento da vida deve ter dito a frase clichê: “é o destino” ou qualquer uma de suas variações quando você tem o mesmo pensamento que uma pessoa, ou vai para o mesmo lugar que ela, ou então, fala ao mesmo tempo; as situações são diversas. Começando por mim, acho que eu já disse essa frase tantas vezes e pra tantas coisas que eu acredito que o tal do “Pensamento em Sintonia” não necessariamente é só com a pessoa que você está gostando no momento, mas em relação a tudo a sua volta.

Você entra em sintonia com as coisas e com as pessoas.

Então, basicamente essa é a tese do meu argumento. O pensamento em sintonia existe sim. Às vezes você se conecta, ou se identifica tanto com algo/alguém que é inevitável que seus modos e comportamentos não sejam refletidos na atitude do próximo, o outro lado da conexão. E isso é o que acontece com a maioria dos casais. Por que afinal de contas, o que é mais próximo do que duas pessoas apaixonadas? Então, até pela ebulição do momento, de todo aquele amor e feniletilamina, parece que as duas pessoas estão mais ligadas - e talvez até estejam -, mas não seria diferente se qualquer uma delas tivesse ligada a outra pessoa ou algum objeto, sem necessariamente ser romântico. Mas, quem sabe, a palavra certa aqui seria afetivo. Assim, não é como se a sintonia fosse um acontecimento exclusivo do relacionamento entre duas pessoas, muito pelo contrário, talvez ela seja um reflexo, uma abstração e mistura de atitudes e perfis das duas coisas que entram em contato; sejam objetos, sejam pessoas desde que os dois lados ou um lado nutra afeto em relação ao seu oposto.

Assim sendo, partimos para o segundo questionamento do subtítulo. Almas gêmeas. Bem, englobando essa questão na minha tese, eu deveria logicamente dizer que se o Pensamento em Sintonia é comum tanto para coisas quanto para pessoas, sem necessariamente ser uma, mas podendo ser várias e em diferentes níveis; logo, existem também várias almas gêmeas. Só que não é bem assim. Por que em primeiro lugar, você tem que acreditar que Alma Gêmea existe. Acreditar piamente que há em algum lugar do mundo (ou espaço-tempo para os sci-fi, nerds, geeks e etc.) alguém que nasceu para você, que te completará e, que será o único e verdadeiro amor da sua vida e que vocês serão felizes para sempre quando se encontrarem, e que os seus destinos são que sempre se busquem pela eternidade e tudo o mais.

Eu não consigo acreditar nisso.

Realmente já tentei, mas não acredito. Não existem Almas-Gêmeas, existem pessoas que se entendem. Que se unem por que se amam, por que não podem resistir uma à outra, por que há algo de mágico (sim, magia mesmo, seja lá se for apenas feniletilamina com dopamina) que as impele uma para a outra, e que, entretanto, após um interlúdio de “perfeição” elas descobrem que ainda continuam pessoas, ainda continuam com seus vícios e virtudes, e que para dar certo mesmo, para que possam ficar juntas mesmo, um “eu te amo” não vai bastar. Que precisam ajustar suas vidas para que elas se entrelacem, e que aceitem as falhas, fraquezas do outro. Pessoas que entendam que devem ceder e devem esperar, e devem estar junto. Que se ama a pessoa de verdade, não deve moldá-la a si, ou exigir que ela mude aquilo que não lhe agrada, mas que junto a ela, chegue num equilíbrio. Exija e doe um pouco de si própria. De ambos os lados. Como uma via de mão dupla em constante tráfego.

E essas pessoas entram em sintonia sim. Por que se gostam, por que sentem afeto uma pela outra. Por que com o tempo, com o convívio, acabam tomando para si o comportamento do outro, influenciando e sendo influenciadas num fluxo interminável.

Só que o ponto é: Poderia ser qualquer tipo de pessoa. Poderia ser um casal, sim. Poderia ser um livro e um leitor, igualmente. Um pai e uma filha, uma mãe e um filho. O mundo e a sociedade?

Sim.

Todos estão em multissintonia.



Texto escrito para o: Bloínquês e sua 25ª edição opinativa.

Definhamento cíclico, um conto.

Era um corredor comprido e imaculadamente limpo, um arrepio lhe percorria a espinha ao pensar em cruzá-lo sob a luz parca da lua que inundava pelas claraboias transparentes. A cada passo que dava rumo à pesada porta de carvalho esculpido, era como se o chão se movesse, e as coisas de repente rodassem ao seu redor. O que estava acontecendo? Pôs os dedos nas têmporas, esfregando, tentando conter a dor inexistente e obrigou-se a dar mais um passo, apenas para escutar sussurros ininteligíveis. Quem estava falando? De quem eram as vozes? Por que ela sentia-se tão estranhamente familiar ali?

Uma risada. Uma gota de suor gelo escorrendo pelo canto da testa.

- Alguém? - Murmurou.
O corredor começou a encher-se de sombras na medida em que uma nuvem cobria o luar, ficaria escuro, ela não podia ficar no escuro, precisava manter-se sob a luz. Não sabia de onde havia surgido a sensação de pânico e certeza, mas seguiu-a, correndo até o único feixe iluminado, um pequeno castiçal alguns metros da porta. Por que deveria cruzá-la? Por que suas pernas pareciam mármore ao pensar em dar as costas e achar uma saída?
 
BAM!

Num estremecimento, acordou com o ruído de uma porta que se fechava pesadamente lá embaixo, no térreo. Sentou-se na cama, as cobertas escorregando em direção chão. Abraçou os joelhos, orou, limpou o suor da testa e pestanejou até que seus olhos acostumassem-se a escuridão. Tentou lembrar-se do sonho, era estranho; sua boca ficara amarga e os pelos eriçados. Mas o que havia acontecido?

Lembrou-se da porta.

O coração acelerou e levantando-se, pôs um robe sobre o velho pijama. Por que a porta bateria como se alguém estivesse saindo ou entrando? Olhou no relógio, três da manhã. Horário estranho. Esfregou o rosto, tomando coragem. Abriu a porta a tempo de ver um farfalhar de cabelos não identificáveis, descendo a escada sorrateiramente. Franziu o cenho e o seguiu.

Um grito. Correu.

O corredor era comprido e imaculadamente limpo... A cabeça girou, os olhos doeram e as pernas ameaçaram ceder sob o peso. Conteve a respiração, andando lentamente, o rosto fixo na porta de carvalho. Era da sala.

Movimento. Parou.

Das sombras emergiu a figura, era corpulenta, entretanto de suave. Os cabelos ralos, os olhos pequenas fendas enegrecidas, brilhantes de fanatismo. Também olhava para a porta e caminhava em direção a ela, sempre pelos cantos escuros. Um breve momento, sob a luz das velas, um reflexo metálico, uma faca. A maçaneta girou e ele esgueirou-se para o interior.

Pânico.

Ela voltou a correr. Escutou uma risada, vozes, sussurros; ficou sem ar, levou as mãos ao pescoço e caiu contra a porta. Estatelou-se no chão, o pulso pareceu quebrado, uma dor lancinante lhe tomou o estômago e seus olhos ficaram escuros, desfocados. Olhou para cima, um grito de horror ficou preso na garganta. Ela estava sangrando.

Ela estava morrendo.

De novo. E de novo.

Dor. Dor. Dor.

O homem levantou-se, jogando um corpo ao chão. A blusa ensanguentada, a faca em mãos.
- Para sempre minha. – Disse, olhando para além ela, que também estava de pé. Mas ela não havia morrido? O que estava acontecendo? Perguntou-se e então viu o rosto, pálido e sem vida do corpo.

 Era seu.

Arregalou os olhos, caiu de joelhos e chorou lágrimas peroladas. Assustou-se, o homem se moveu novamente, em sua direção. Confusa, escondeu o rosto, algo tremeluziu, e então ele não estava mais ali. Ouviu um gemido, um arfar.

Amargura.

Virou-se com as mãos contra o ventre manchado de sangue, mas sem feridas, e observou o homem cair ao chão. A garganta rasgada.

Morte.

Uma luz forte, frio, esquecimento. A cena desapareceu, negrume, palidez, inconsciência.

Paz.
(...)
Era um corredor comprido e imaculadamente limpo...



Texto escrito para o Projeto Bloínquês
27ª Edição conto/história:  "acordou com o ruído de uma porta que se fechava pesadamente lá embaixo, no térreo."

Espero que gostem!


O céu não é o limite

Os raios solares cingiam contra as nuvens, provocando uma brancura ofuscante e ainda assim delicada, no plano de fundo aquele manto cerúleo que se estendia além dos horizontes, onde as vistas não alcançavam. A grandeza era opressora, olhar para o céu me fazia sentir minúscula, desprezível. Do que eu sabia? Do que todos nós sabíamos? Por um momento pensei numa lembrança antiga, a areia triturando sob meus pés, úmida da água cintilante que vinha do oceano, o oceano tão azul quanto o céu, e no horizonte, ali eles pretendiam se encontrar, mas o tão perto que pareciam, era apenas uma sombra do quão distante estavam. Não era o céu que buscava ao oceano, mas o oceano que tentava alcançá-lo, com inveja do seu azul mais brilhante, do seu calor, da sua liberdade desmedida, do seu infinito. Por que o oceano, ah, ele enganava a todos, com a falsa promessa de plenitude e além dos limites, pois ele tinha limites, ele nos impunha limites e como nós em relação ao céu também era minúsculo, desprezível em toda sua beleza cálida, mas ainda assim tentador ao nos seduzir a explorar suas águas que da calmaria tornava-se tempestuosa, traiçoeira. Cerrei os olhos e sonhei, sonhei em ser livre, em estar navegando nos céus, cortando as brumas das nuvens, indo de encontro à verdadeira imensidão. No sonho eu suspirei parada a proa, os braços erguidos enquanto o vento bagunçava meus cabelos, me recusando a olhar para trás, esquecer o passado, esquecer a gaiola em que vivia, recomeçar, sem previsibilidade, sem fraquejo, sem dores. O navio está me levando pra longe, sorri largamente, me levando para um lugar que não sei qual é, para novas descobertas, para uma nova vida. Por que o céu, o céu não era o limite, era quem sabe, o começo do infinito.



Texto desenvolvido para o Projeto Bloínquês 28º Tema Musical: O navio está me levando pra longe (Muse - Starlight)
Curiosidade: É minha música preferida deles. IUAHDIA.


Beijos.